” A Arménia assustou-me, escancarou-me mas abriu-me os olhos.”

 

Lembro-me de ligar à Camila a meio da viagem e dela me perguntar porque é que não a tinha levado comigo. Respondi-lhe que não era assim tão giro e ela respondeu-me: – Então o que é que estás aí a fazer?

Desde então que procuro a resposta para uma das viagens mais duras que já fiz.  Talvez pela fase que vivia, talvez apenas pelo país que visitei, talvez pela fusão das duas.  Fui com o MEF – Movimento de Expressão Fotográfica que organiza viagens fora de pista com grande enfoque na fotografia documental.

 

 

Já sou batida em grupos, não é grupinho Inatel, é uma viagem de interesse vertical, viajantes autónomos e batidos que se juntam à volta de um interesse comum, neste caso a Fotografia. E porque é Arménia? Talvez pela curiosidade de descobrir um país diferente, que nos trouxe uma tremenda referência a Portugal, o Gulbenkian. Talvez por ter visto um programa do Anthony Bourdain em Yerevan e ter achado tão fora, que quis estar por dentro, talvez porque  muito pouca gente queira ir à Arménia, e eu tenho a mania de querer ir a sítios onde mais ninguém foi.

 

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Havia algo entre o inóspito, o isolado, o histórico e o esquecimento. Imaginei a arménia como uma pessoa, alguém de densa profundidade, com uma alma perfurada de pequenas e dolorosas incisões,  com um passado que avança como uma sombra sobre o futuro, com um futuro que avança cansado sobre o passado. A pesada herança russa, o genocídio turco, a diáspora interminável, o monte Ararat, o reconhecimento internacional, um país sem mar, 4 fronteiras terrestres (Turquia, Georgia, Azerbeijão e Irão), terramotos, Kardashians, campeões de Xadrez e a primeira nação a adoptar o Cristianismo como religião de estado, imaginem o estado de tudo isto. Só indo. Só levando a alma de cá para lá, só sendo recebido por um sorriso e uma taça de alperces, só pernoitando nas casas simples das pessoas que nos acolhem e se encolhem para nos dar apenas o melhor.

 

 

Houve muitos dias em que tive uma vontade enorme de chorar, chorar a injustiça do mundo e a minha sorte. Hoje acho que já sei explicar à Camila porque é que importante conhecer tudo, mesmo o que se apresenta menos convidativo. Sair da zona de conforto é uma elevação para os sentidos, é uma colherada de maturidade sem anestesia, é um punhado de areia nos olhos que permite ver tudo melhor a seguir.

 

 

A Arménia foi até agora das viagens mais importantes que fiz e as fotografias não mentem, não camuflam, nem machucam. Não vire as costas às coisas menos bonitas, olhe tudo de frente, a vida é um espectro infinito, não se negue nenhum prisma se quer ter a visão absoluta de tudo o que o rodeia. A Arménia assustou-me, escancarou-me mas abriu-me os olhos.

 

 

Fechemos as contas da alma e vamos a contas de bolsos: É  muito barato andar pela Arménia, a comida é boa, muita base fresca de legumes, o famoso pão lavash com 3000 anos, até deixo aqui um link para aprenderem a fazer igual: https://www.youtube.com/watch?v=Lb7qN4K0FLo, vários tipos de pasteis de carne e queijos e muito alperce. Esqueçam o expresso da manhã e foquem-se no cafe turco cheio de borra, com a vantagem de decifrar o destino no fundo de uma chávena. Em Yerevan, a capital, há de tudo e o preço continua a ser acessível para um bolso português, era  muita arrogância pôr me na balança do europeu.

 

 

| PERCURSO |

Yerevan- Երեւան: A capital da Arménia. É o centro administrativo, cultural e industrial do país. Tem cerca de 1.2 milhões habitantes, o que é quase metade da população do país. Foi fundada em 782 a.C. pelo rei Arguishti II. O maior desenvolvimento urbano foi entre 1945-1982, na era soviética. A outra face deste desenvolvimento foi a total destruição da cidade pela União soviética, na ideologia da qual entrava a ideia de apagar a história e cultura dos povos sob a máscara de igualdade e irmandade.

Gyumri – Գյումրի: A segunda cidade maior da Arménia. Na era soviética foi o centro industrial do país. Em 1988 sofreu terramoto que levou a vida de 25 000 pessoas. Até hoje a cidade não se conseguiu recuperar totalmente. Os vestígios do sismo continuam a fazer parte do dia a dia de cidadãos.

Verin Getashen- Վերին Գետաշեն: Uma aldeia típica da Arménia. Apresenta o retrato típico da vida nas aldeias, trabalhos nos campos, tarefas de dia a dia. As pessoas vivem em casas humildes, com várias gerações. As ruas de terra batida são uma parte inseparável da imagem rural destas aldeias.

Goris –Գորիս:Tem cerca de 20 mil habitantes. Têm uma imagem urbana única em todo o país. As ruas da cidade apresentam uma rede retangular, construídas com casas de dois andares (sob uma sanca). Os bairros construídos por prédios de tipo, na era soviética, nunca foram bem vistos pelos habitantes da cidade. As pessoas são humildes e orgulhosas. Durante sete séculos a Arménia foi invadida pelos turcos, árabes, persas, mongoles, no entanto, esta região nunca obedeceu a ninguém.

Aygavan- Այգավան:Uma das aldeias na província Ararat. A ocupação de pessoas maioritariamente é agricultura e criação de gado. Da aldeia abre-se uma vista para a montanha Ararat, símbolo do país e montanha bíblica, que ficou no território da Turquia e nos sonhos de muitas pessoas.

 

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