” A vida é a única oportunidade que tenho. Não quero viver adormecido, à espera de um momento, que tem tudo para ser este mesmo.”

 

 

Não conheço o Pedro. O mundo é grande. As redes sociais trazem muito material acessório, mas também te dão acesso a histórias de vida, incríveis.

Alguém me mandou uma mensagem a sugerir que o Pedro dava um bom gangster. E eu fui cuscar, e, em dois segundos, estávamos a trocar mensagens.

Será que é do nome, este ímpeto para se pôr a milhas, a curiosidade, a inquietude permanente? Claro que não, estava a ser tendenciosa, só porque namoro um “Pedro”.

Este Pedro até já tem um livro, tenho a certeza que já plantou uma árvore, e terá tempo que sobra para filhos, para sonhos e para destinos. Só para verem como não se acanha, já fez Portugal – África do Sul de bicicleta. Até me fez sentir comodista por andar de avião.

Como todos os bons Gangsters, ao Pedro também lhe falta tempo, não como carência, mas como espaço de concretização de “pedalada”. E quem não vos rouba mais tempo, sou eu, porque agora quem fala, como quem sabe, de si, é o nosso Gangster.

Com vocês , Exmos. Senhores e Senhoras… António Pedro Moreira.

Ou ainda melhor…Pedro On The Road.

 

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| QUEM ÉS TU? |

Não sei como me definir, que padrões usar, que parâmetros.

Se disser o meu nome, qualquer Pedro sou eu; se disser aquilo de que gosto, então qualquer pessoa que goste do mesmo, sou eu. Como a mistura das minhas características é exclusiva a mim, então será isso eu? Ou serei o que fiz? Ou a constelação das minhas vontades? Se cresse em “alma” seria isso eu, ou apenas umas das representações de um eventual Deus que a criou?

Vou regredir uns anos atrás e deixar esta pseudo-complexidade, e fingir que a questão é: “Completa a seguinte frase – Eu sou alguém que ________”.

Sou alguém que: Tem consciência da brevidade da VIDA de uma forma que é um empurrão nas costas. Sou impelido para a frente. À beira de um precipício percebo que, ou salto e caio no lago lá em baixo, ou resisto, viro-me ao contrário, escorrego e fico na beira, agarrado por um braço, talvez para sempre.

Decido saltar e, à medida que vou caindo, não tenho a certeza se vou aterrar bem, mas parece provável. Por isso, vou sentindo o vento a bater-me na cara, e fico feliz por ter saltado.

 

| QUAL É A TUA CAUSA? |

Preocupa-me o conceito “deixar pegada”, mas falho redondamente no que a voos diz respeito. Tento compensar doutras formas, mas não sei se alguma delas se pode considerar “a minha causa.”

Tento não comprar muita coisa. Não compro roupa. Vai-me sendo passada por pessoas que estão fartas das suas; não compro tecnologia nova, para não contribuir para a exploração de crianças na RDC; não como McDonald’s, não bebo Coca-Cola, reciclo, enfim,… gotas num oceano, é certo. Mas quero ter cada vez mais gotas nesse oceano de fazer aquilo que está certo.

Há uns anos, comia carne ou peixe três/quatro vezes por semana, e andava à espera da oportunidade para dar o salto para o vegetarianismo. Foi anteontem.

Tenho como motivação, o impacto que esta escolha tem no meio ambiente. Imagino que, daqui a duas ou três gerações, seja uma prática comum, e toda a gente diga: “Eu seria incapaz de contribuir para a degradação do meio-ambiente”, do mesmo modo que, nos dias de hoje, muita gente diz: “Eu seria incapaz de ter escravos.”

É preciso haver gente a começar, e, a verdadeira coragem, está em ir contra a corrente. Acho que é preciso força de vontade para abdicar do que se gosta. E, não é por eu o fazer, que vou menosprezar isso.

Mas prometo não me tornar num daqueles vegetarianos chatos.

 

 

| O QUE É QUE TE TROUXE ATÉ AQUI? |

A vontade de ser exactamente o que quero ser. Ter as minhas prioridades pessoais bem definidas e não fazer compromissos comigo mesmo.

Faço compromissos com a minha esposa, por exemplo, porque apesar de eu ser a minha própria pessoa, abdico de partes da minha liberdade egoísta, em detrimento da minha liberdade conjunta com ela. Faço-o sensatamente, creio, porque as pessoas, muitas vezes, não têm cuidado, e esses compromissos são feitos “à toa”. Depois, nasce algum rancor e há uma culpabilização injusta da outra pessoa por nos ter “proibido de sermos quem queríamos ser.” Não é o caso.

Não faço compromissos comigo mesmo, mas tenho compromissos, ainda que, por vezes, sejam não ter compromissos. O maior deles todos é o de ser fiel a mim mesmo. Isso faz com que não tenha nenhuma obrigação em viajar sempre, por exemplo, pois, a dado momento, pode deixar de me apetecer. Se isso acontecer deixo de o fazer. E tudo bem.

Às vezes as pessoas colam-se muito a uma ideia que curtem de si mesmas, e, dessa noção de acharem saber exactamente quem são, pode advir a castração.

 

 

| QUEM É O TEU GANG? |

Não tenho gangues. Tenho amigos, família, conhecidos e a minha esposa. Mas não tenho gangues. Se tivesse um, seria o mundo inteiro.

Claro que me identifico mais com as pessoas à minha volta do que com quem não conheço. E, talvez, me identifique mais com um português aleatório do que com um espanhol aleatório. E por aí fora…

Mas isso não quer dizer que eu tenha, dentro de mim, círculos de gangues. A mentalidade do gangue vai sendo cada vez mais tóxica nos últimos tempos. As pessoas identificam-se como homens ou mulheres, como portugueses ou chineses, como heterossexuais ou gays, como cis ou transsexuais, e esses gangues, levam a políticas de identidade, que as leva a ver as coisas de uma forma muito menos global e, arrisco-me a dizer, menos inclusiva, apesar de o objetivo inicial ser outro.

Dizer isto para um sítio chamado “Gangue do Pé Preto” pode parecer rude. Mas além de não me importar se parecer, creio que a vossa conceção será diferente da minha. Quis ir para este lado porque é o que acho que tenho a dizer.

 

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| DE QUE MATÉRIA É FEITO O TEU GANG? |

Como disse anteriormente, seria feito de psique, que é o que nos une a todos enquanto humanos. Não é que me esteja a marimbar para os animais, não estou, mas tenho bem mais apreço por humanos. Seria uma gangue bastante grande, tão grande quanto um gangue pode ser. Sem chefes nem más-vontades, com diálogo e abertura.

Não sou anarquista. Acredito em várias formas de poderes centralizados. Mas se este gangue seria formado por mim, permito-me sonhar.

 

 

| ÉS PÉ DESCALÇO OU PÉ CALÇADO? |

Se estivermos a falar em termos de viagens, e pé calçado for a pessoa que fica num “tudo-incluído” e o pé descalço for o gajo que anda à boleia a ficar em casa de CouchSurfers ou albergues baratos, sou totalmente pé descalço.

Se falarmos em termos das minhas condições normais, tenho um pé tão calçado que o sapato dá a volta a todo o meu ser.

Estou a escrever no computador da minha esposa, tenho outro, que é o meu, ali ao lado, estou numa casa que é minha, e entre os dois, temos um carro.

Quando avalio a calçadês dos meus pés, acho saudável pensar nas calçadezes que fui vendo ao longo destes anos, destes países todos.

Há pessoas que acham viável compararem-se com quem está melhor, pois isso, dá-lhes algo por que lutar. Eu prefiro olhar para quem está pior, porque isso me faz sentir mais grato em relação áquilo que tenho. Não é para me sentir melhor que essas pessoas, mas para me valorizar.

Infelizmente, e apesar de eu não ser considerado rico, provavelmente, mais de noventa por cento das pessoas do mundo, terá mais buracos nas meias do que eu.

 

 

| O QUE É QUE TE FAZ SALTAR A PÉS JUNTOS? |

A VIDA. É a única oportunidade que tenho. Não quero viver adormecido à espera de um momento que tem tudo para ser este mesmo.

Quero entregar-me a esta experiência, com tudo o que tenho.  Apenas neste planeta, é que os meus olhos ver qualquer coisa, os meus ouvidos ouvir qualquer coisa, o meu coração sentir algo. Não quero viver a meio.

 

| O QUE É QUE TE TIRA OS PÉS DO CHÃO? |

Um casal de adolescentes a dar o que me parece ser o primeiro beijo. Ou a maneira como aquela rapariga, há duas noites, em Lisboa, disse, com um sorriso totalmente comprometido e quase uma gargalhada de êxtase na voz: “Mas desde quando é que eu sou a tua gaja?”, e o rapaz, de polo amarelo com um sorriso sincero e investido, respondeu: “Desde hoje.”

Nunca mais os vou ver, passaram para baixo enquanto eu passava para cima, às quatro da manhã. Mas gostei de os conhecer, ainda que não tivéssemos trocado uma palavra.

Também gosto de ver crianças e jovens a ter sucesso. Faz-me sentir orgulho por eles, estranhamente, como se me esquecesse de que não são meus filhos.

 

| O QUE É QUE TE FAZ TREMER DOS PÉS À CABEÇA? |

Estas novas ondas do pessoal que é contra a vacinação, por exemplo. Dá-me pena e irrita-me a ideia. Quando surgem conversas sobre isto, não me apetece sequer participar, porque sei que não vai levar a lado nenhum.

Mas devemos isso uns aos outros, engajar em conversas mesmo que não estejamos para aí virados, porque é tendo essa força de vontade que podemos melhorar alguma coisa ou até, espante-se, ser melhorados.

Há várias destas ideias que não têm sentido e baseiam-se em teorias de alguém. Vêm sempre com um: “Então como é que explicas que (…)?” como se o facto de eu não conseguir explicar algo, queira dizer que tem de ser obra de conspiração.

Várias delas são inócuas. Não é o caso da ideia das vacinações – são ideias perigosas que poem em risco crianças! Isso faz-me tremer dos pés à cabeça, metaforicamente.

Acho que, geralmente, estas crenças, vêm de alguém que se quer ver como especial, como mais informado ou iluminado do que o resto da humanidade, as sheeple.

Nem sempre, o bem comum é tido em conta. O pessoal fica confuso, e não consegue ver as coisas com discernimento e claridade.

 

 

| QUAL É A MELHOR COISA QUE TE PODEM DAR? |

Tempo. Tento não dar valor a quase nada. Não posso dizer que seja totalmente despreendido, mas é um caminho que tento percorrer.

Hum… Talvez acrescente que, de uma forma mais egoísta e quase-materialista: Uma experiência. Mas se alguém me der o seu tempo, já fico contente. É algo que, quando nos dão, é porque nós o estamos a dar também.

 

 

| QUE SÍTIOS NÃO PODEMOS PERDER? |

Em Portugal, talvez a Frecha da Mizarela, na Serra da Freita. Apesar de ser a cascata mais alta de Península Ibéria, não é muito impressionante quando se vê do miradouro. Contudo, quando descemos lá abaixo, temos uma mini-cascata à nossa frente, um pequeno lago onde podemos nadar; um lugar que adoro. Trepando a parede temos outro laguinho. Depois outro. Depois outro.

Para lá da fronteira, um sítio imperdível é o Vale Hunza, no Paquistão. Estive lá em 2011 e foi um sonho: Pequenas localidades, onde passeámos por caminhos delimitados por muros de pedrinhas amontoadas; campos aos socalcos, montanhas com neve no topo. Uma pessoa sente-se especial em estar ali. O facto de sermos os únicos turistas faz-nos sentir meio exploradores, e, o que nos chega aos olhos, é belo.

 

| ONDE SONHAS METER O PÉ? |

Gostava de voltar ao Vale Hunza, a Ayem (no Gabão, onde tive a experiência mais alucinante da minha vida), ao Angkor Wat (e ver se encontro o anel que lá deixei para pedir a Graciete em casamento).

Também quero ir ao Japão, às Filipinas, em Myanmar, na Ásia Central, no coração da Rússia, sei lá… Gostava de ir a todo o lado. Como isso não vai ser possível, vou tentar contentar-me em ir aos países todos e, findo isso, talvez a tantas culturas quanto possível.

 

 

| O  QUE LEVAS NA MALA? |

O meu PC para escrever, a minha coluna Bluetooth para ouvir música, uns fones. O resto é tudo normal.

 

| O QUE TRAZES NA BAGAGEM? |

Noções de relatividade. De que, salvo algumas excepções, cada pessoa, cada cultura, é o seu próprio Universo com os seus dogmas, com as suas realidades e conceitos.

Trago essa aprendizagem de que aquilo em que creio não é necessariamente o mais correcto, e que, eu só o creio, porque tive a felicidade de ter nascido num determinado sítio, que me ensinou, por exemplo, que a mulher merece o mesmo que o homem. Isso faz com que não julgue quem não ache o mesmo.

 

 

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