” Estou sempre à caça de emoções novas. Não sou amiga da rotina e adoro bons desafios.”

 

Conheci a Isabel num dos meus workshops. Tinha uma trança loira e grande, desfeita caída sobre um sorriso tímido.

As cores coloridas do lenço denunciavam um espírito nómada que pressenti muito antes de se apresentar.

O que eu gostei na Isabel foi a forma adjectivada com que falou das coisas que a apaixonavam, a filha, o marido, as viagens e a autocaravana. Falou me dos seus planos, feitos de sonhos a três.

Quando vi o Instagram da Isabel, as fotos em África, rendi-me. Sabia que, um dia, seria uma das nossas gangsters. E esse dia chegou, como eu espero que cheguem todos os sonhos que tem.

 

 

| QUEM ÉS TU? |

Tenho 36 anos, sou natural de Bruxelas, cresci em Portimão perto do mar, e vivi muito tempo entre Lisboa e o resto do mundo. Tenho um irmão mais velho, duas irmãs mais novas, um marido e uma filha há dois anos e meio (mas ainda estou a aprender o que é isto de ser mãe da Mariana). Recentemente, mudei-me para a zona Oeste de Portugal.

Nasci já bastante curiosa e inquieta. Sou a típica bichinha do mato. Não gosto de grandes multidões e não gosto de estar muito tempo parada. Estou sempre à caça de emoções novas. Não sou amiga da rotina e adoro bons desafios. Sou uma pessoa de poucas palavras faladas, mas adoro a escrita de diário.  Tenho uma paixão louca por tudo o que são viagens pelo mundo, que impliquem estar em contacto com outras culturas, outras histórias de vida. Sou licenciada em Antropologia e adoro fotografia.

Adoro o que faço profissionalmente. Já estive em muitos países (o que para mim é pouco, gostava de continuar). Estive na República democrática do Congo (onde nasceu a minha mãe), na Guiné, Cabo Verde, São Tomé, Mali, Senegal, Mauritânia, Marrocos, Filipinas, Etiópia, Planalto Tibetano, Macau, Bangladesh, Moçambique, Gâmbia, Sahara.. Fazia claramente isto o resto da vida.

 

 

Sou apologista de que a vida deveria ter banda sonora de acordo com os momentos que se vai vivendo. Gosto muito de música e de dançar (ainda que seja dança livre e não saiba propriamente o que estou a fazer).

Gostava de ser imortal, não acho piada nenhuma quando penso que a vida tem um fim.

 

 

| O QUE É QUE TE TROUXE ATÉ AQUI? |

Sou filha de um pai do mundo. Passo a explicar: Cresci num ambiente de ausências de alguém inquieto por querer “ajudar” tudo e todos. Tenho uma família de coração enorme com grande respeito pela humanidade. Inevitavelmente, deixei-me levar por esses valores. As histórias que o nosso pai nos contava, nas poucas vezes que nos ia dar um beijo de boa noite, continham sempre nelas valores humanitários de respeito ao outro. Sempre soube que era esta vida que queria seguir e, tendo possibilidades para isso, não estaria a ser esperta se não aproveitasse.

 

 

Em 2015 fiz uma Missão de longos meses entre a ilha de Bolama e a ilha das Galinhas da Guiné-Bissau. Fui numa tentativa de saber mais sobre a etnia Bijagó, para descobrir como nos poderíamos adaptar melhor na implementação dos nossos projetos na área do desenvolvimento. O Pedro também foi, como coordenador de um projeto de longa duração.

 

 

Foi assim que nos encontrámos, os dois a fazer missão na mesma ilha. Já éramos colegas há três anos, mas foi no calor da Guiné que descobrimos o tanto que tínhamos em comum. O Pedro tem um passado militar como Comando que me apaixonou de imediato. A persistência, profissionalismo e ambição e o à vontade que ele tem em se adaptar em qualquer contexto. Formámos uma excelente equipa, a todos os níveis e sonhávamos ficar lá para sempre.

 

 

Findo o projeto, o Pedro, em conversa de café, desafiou-me com uma proposta: “- E se voltássemos para Portugal de mota?”. Respondi logo que sim, sem sequer pestanejar. Adoro motas, dunas, e paisagens. Para além disso, era uma boa desculpa para não regressar de avião.

 

 

A meio da viagem descobrimos que estava grávida. Algo planeado, mas não pensámos que acontecesse tão rápido. Foi giro, porque, no momento em que soubemos que a Mariana também vinha connosco na viagem, foi um misto de emoções.

O instinto protetor começou logo a despertar: “- Pedro, vai mais devagar! Olha os buracos…”. “ – Aquela cervejinha fresquinha no meio do caminho, vai ter que esperar. Nem acredito que comi carne de camelo e aquela coisa que não sabia o que era na Mauritânia, será que faz mal ao bebé?”. O meu mau feitio começou a fazer-me sentido. Se já era pouco tolerante em relação à corrupção e abuso de poder, com a gravidez tornei-me uma reivindicativa sem filtros.

 

 

À custa disso, quase que fomos presos na Gâmbia, quando me quiseram vasculhar a máquina fotográfica, porque me recusei inicialmente a mostrar fosse o que fosse. Senti como invasão de privacidade. Mas eles tinham razão em mandar-nos parar. Entrámos ilegais no país. Seguimos um carro de pessoas que nos disseram que era por ali. E fomos. Estranhámos o caminho cheio de buracos e lamas, mas nada que já não estivéssemos habituados. Quando chegámos à fronteira, já a tínhamos passado.

 

 

Mas dois “branquelas”, numa mota, claro que nunca passariam despercebidos. Fomos novamente “quase presos” em Marrocos, no caminho desértico. Chamaram o Pedro e deixaram-me especada ao sol. As mulheres não são tidas nem achadas. Deu-me o meu mau feitio nervoso depois de um logo tempo de espera ao sol e decidi invadir as paredes da “esquadra” e mostrar que estava zangada. Orgulhosa do meu francês, apercebi-me que iam cobrar dinheiro ao Pedro (que mal falava francês) só porque sim. E aquilo enervou-me. Resultado, o polícia devolveu o dinheiro e depois pediu-nos o seguro. Ou seja, o sorriso do Homem voltou a abrir-se quando se apercebeu que o nosso seguro (não sabíamos), não cobria a zona de Marrocos.  Pagámos, e bem.

 

 

O plano era continuar a viajar quando chegássemos a Portugal, mas tivemos de abrandar. Com uma filha, as coisas teriam de ser mais pensadas. Já não daria para viajar de mota, a três.

Depois de muitos impulsos, com desistência, para comprar casa em Lisboa, decidímos mudar de vida, outra vez. Em vez de uma casa fixa, investimos numa autocaravana e estamos neste momento a viver numa casa alugada na Zona Oeste, perto da serra e do mar.  Uma qualidade de vida indescritível.

 

 

Usamos a autocaravana “casa pópó” como diz apaixonadamente a Mariana, para darmos umas escapadelas sempre que possível, só pra fingir que não vivemos numa rotina. Foi a melhor decisão que já tomámos.

Em 2020 queremos dar a volta à Europa em autocaravana com a Mariana. Porquê 2020? Por razões profissionais e porque também há que poupar dinheiro. Porque isto de se viajar paga-se e bem.

 

 

 | QUEM É O TEU GANG? |

Tenho o meu gang grande (família paterna sempre unida nos valores e nas crenças) e o mais restrito. O gang do My Nomad Familly: O Pedro (o meu companheiro de aventuras da vida) e a Mariana (a nossa filha minorca).

 

| DE QUE MATÉRIA É FEITO? |

De valores, de humor, e de tranquilidade. Valor do respeito em relação à humanidade, do combate à indiferença e de pé descalço no mundo. Imagino o meu gang como o camaleão que se adapta a qualquer contexto, que passa despercebido, mas que vai andando por aí.

 

 

| ÉS MAIS PÉ DESCALÇO OU PÉ CALÇADO? |

Uma das características que também me define é o pé descalço. Levei tantas vezes na cabeça dos meus pais, desde que me conheço. “Calça-te antes que fiques doente!”. Ouvia isto constantemente e, agora, dou por mim descalça em casa, a dizer o mesmo à Mariana. Não faz lá muito sentido, mas é assim.

Faça frio ou calor sempre que posso liberto os pés e a Mariana igual. Adoro o contacto com a terra. E nunca me preocupei com os pés sujos que podem ser lavados mais tarde.

 

 

| QUAL É A TUA PEGADA? |

Não me preocupa não deixar pegada. Não vivo com o objetivo de deixar marca. Vivo para viver o que acredito com bastante intensidade. E a minha causa é o meu legado.

Acredito profundamente no legado humano que o meu pai nos vai deixar. Porque, por mais imperfeições que possa ter, eu sei que é de verdade. É movido por crenças de combate à indiferença e à intolerância e à falta de respeito por qualquer ser humano.

A minha causa, passa muito por nunca abdicar dos meus valores. Esses sim, são intransponíveis. Mas gostaria de deixar esta pegada de liberdade e amor ao próximo à Mariana, mais do que ter que obrigá-la a dormir na sua cama ou a ter de comer a sopa todos os dias.

 

 

| ONDE SONHAS METER O PÉ? |

Em todo o lado que seja longe de um mesmo lugar. Levem-me para qualquer lado, com o meu gang de preferência. Adorava meter o pé em lugares onde nunca estive e voltar à Guiné. Viveria tão bem por lá. Gostei mesmo daquilo e das gentes da terra.

Gostava muito de ir ao Cambodja, Vietname. Vivi em Macau uns meses e fui adiando uma viagem de sonho que era logo ali ao lado. Acabei por deixar escapar a oportunidade. Gosto de sítios com passado de Guerra.

Tenho uma paixão enorme pela história que implicou sofrimento de multidões (quero saber mais acerca de quem eram estas pessoas, que marcas deixaram na identidade do sítio). Gosto mais deste tipo de mundo do que propriamente do espiritual.

Gostava de voltar à Etiópia, ao Bangladesh e a tantos outros sítios.

 

 

 |O QUE É QUE TE MOVE? |

A curiosidade e a inquietação é o que mais me desperta nesta grande vontade de querer andar pelo mundo sem parar. Quando fico impossibilitada de o fazer fico com um mau feitio impossível de aturar.

 

| O QUE É QUE TE FAZ SALTAR A PÉS JUNTOS? |

Viagens. Sobretudo as que são com sentido e se for com o Pedro e a Minorca, é mais do que perfeito. Acredito que na vida pensar demasiado cria-nos apego e medos.

Salto a pés juntos sempre que possível em tudo o que me envolve.

Liberdade e um freepass para andar e estar pelo mundo com o meu “gang” sem ter que deixar a minha vida profissional. E não falo de ordenado. Falo da paixão que me move profissionalmente. Gosto mesmo do que faço. Mas gostava de não ter que voltar à base. Não sou pessoa de estar atrás de uma secretária. Começo logo com um tremelique nervoso no pé.

Gostava, realmente, de andar eternamente pelo mundo sem que com isso tivesse de ter algum tipo de prejuízo. Gostava que fôssemos uma Família digital nómada, mas cá em Portugal é um pouco difícil. De certa forma acho que parece injusto viver de viagens. Mas se tivesse essa oportunidade saltava a pés juntos.

 

 

| O QUE É QUE TE MEXE COM A ALMA? |

Sei que é cliché dizer isto. Mas o que mais me mexe com a Alma são as pessoas. As histórias de vida. As diferentes vivências, emoções, tudo! Interesso-me por pessoas e emociono-me mais facilmente com as histórias dos outros do que propriamente com a minha. Emociono-me com os programas da manhã quando calha no zapping.

O Pedro até costuma gozar comigo porque arranjo desculpa para tudo o que seja disparate das outras pessoas. “Ohh, sim está bem, esta pessoa fez isto de mal… Mas também, não sabemos o que a levou a fazer isso… pode ter algum problema.” Já várias pessoas que passaram pela minha vida referem isso: Que não olho a aparências e que tento arranjar sempre explicação para tudo. Um pouco ingénua eu sei.

Tenho, também, um respeito enorme pelas pessoas da terra. Pessoas literalmente da terra. Os mais velhos, com rugas de histórias por contar. Mexe comigo a solidão alheia.

 

| O QUE É QUE TE FAZ TREMER DOS PÉS À CABEÇA? |

No mau sentido a rotina. No bom sentido a fuga à rotina.

Vá, confesso, sei que não faz sentido nenhum, mas fazem-me tremer o medo de andar e avião e as alturas. Vá-se lá perceber. Acho sempre que do resto posso me safar sempre e da queda de avião nem por isso. Não quero morrer, sou uma apaixonada da vida.

Também me faz tremer sítios com muita gente, ser o centro das atenções e falar em público. Seja só para quatro ou para milhares de pessoas. O sentimento é o mesmo. Tremo de inquietação; tremo de felicidade a vida que tenho com o meu gang; tremo só de estar num contexto diferente do meu.

 

 

| O LEVAS NA MALA? |

Livros, uma mochila, botas, um diário por escrever, máquina fotográfica, roupa confortável e muita adrenalina na alma.

 

| O QUE TRAZES DE REGRESSO? |

Histórias de vida e vontade de quase sempre querer voltar aos mesmos sítios. Trago tudo o que vi, o que senti, o que cheirei, o que experienciei. O que os sentidos me deixaram absorver e trago diários extensos escritos.

 

Ver Mais: Instagram – Nomad Family

 

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *