Tento-me espantar todos os dias (…) E isto,  faz-me sentir acordada para a vida. ” 

 

 

| BIO |

     Maria Peres, tem 37 anos, 4 filhos, 1 projeto e muitos sonhos.

     Licenciou-se em Educação Infantil e trabalhou na área durante uns anos, mas as mil e uma ideias que lhe foram assaltando o pensamento não a deixaram descansar, como é típico daqueles que se inquietam de viver.

      Por isso, pôs as mãos à obra e a alma “à caça” de crescer, ao ver nascer o seu  mais recente projeto educativo (e da sua sócia e amiga Joana Quadros) – “OHficina – Laboratório de Materiais Improváveis“, um lugar onde a imaginação e a criatividade é que mandam, e a única regra é deixar a razão à porta e meter os sentidos “ao barulho”, para se poder sair alguém mais cheio do que quando lá se entrou.

      Nesta entrevista a nossa “gangster” Maria, fala-nos não só, deste projeto, como do que a espanta, do que a inquieta e do que faz sonhar acordada, e acreditar que “a vida é uma canseira de tão boa que é.”.

 

 

|  QUEM É O TEU GANG?  |

Quando penso em gang, vem-me logo à cabeça a minha família (marido e filhos) mas na realidade não tenho UM gang, tenho vários, onde me encaixo com papeis diferentes em cada um deles… 

A vida é mesmo assim, somos a mesma alma no mesmo corpo, em circunstâncias diferentes que exigem performances diferentes… É tão bom quando percebo que cada gang responde de alguma forma às minhas necessidades, pode ser uma visão egoísta mas as relações têm sempre uma pitada deste ingrediente, é natural… Por isso, na realidade, a minha “matéria” é feita de todos os gangs a que pertenço: Sou responsável por eles e eles por mim. 

 

|  ÉS MAIS PÉ DESCALÇO  OU PÉ CALÇADO?  |

Gosto muito mais do pé descalço… De alguma maneira, o SENTIR com os 5 sentidos em alerta e em contacto directo com o que me envolve, o que me sustem (principalmente a natureza, onde, felizmente, o homem ainda não deixou a sua pegada), faz-me sentir mais viva, por isso, não perco uma oportunidade de respirar bem fundo, de acordar bem as mãos, tirar os sapatos ou mesmo deitar-me…

Mas também não dispenso uma experiência calçada, os pés acabam por estar menos envolvidos e, por isso, tenho que despertar mais ainda todas as outras extremidades do corpo, para sentir cada estímulo do exterior, e, mais uma vez, sentir as veias a vibrarem e os sentimentos evadirem-me.

 

|  PREOCUPA-TE O CONCEITO “DEIXAR PEGADA”?  |

Não sou ambiciosa ao ponto de querer deixar “coisas”, “coisas grandes” para os que vierem. Guio-me mais pelos meus instintos e interesses. Se eles me levarem a deixar “qualquer coisa” que fique nesta vida, otimo, que bom. Mas não é esse o meu objectivo.

Tenho 4 filhos a quem, acima de tudo, quero deixar o melhor exemplo possível. Sim, talvez seja esta a pegada que mais me “preocupa”, apesar de esta não ser a palavra que mais me apetece usar –  preocupa. Soa-me a qualquer coisa menos boa, que me inquieta, e, neste caso, não sinto este legado dessa maneira. Sinto sim que é realmente o objetivo que está no top da pirâmide de objectivos da minha vida.

Por essa razão, a pegada que quero deixar é esta – O MELHOR EXEMPLO POSSÍVEL aos meus filhos! E claro, só o consigo ser, se conseguir cumprir todas, ou quase todas, as outras metas que vêm a baixo da primeira.

A vida é uma canseira, de tão boa que é.

 

|  ONDE SONHAS METER O PÉ?  |

Num planalto no Tibete; em muitas mais praias paradisíacas por este mundo fora; em tantos espectáculos e exposições quantas os meus pés aguentarem; em estradas que me levem a lugares desconhecidos onde possa crescer

 

|  O QUE É QUE TE FAZ SALTAR A PÉS JUNTOS?  |

Uma viagem! Sempre que me falam em viagens, os meus pés separam-se do chão e ficam suspensos, à espera do destino e ordem de partida, com toda a impaciência do mundo, enquanto o corpo treme e se agita como um elástico sob pressão que fica a vibrar sem se ver onde começa e acaba…

Uns nervos… Estou SEMPRE prontinha para abalar para qualquer lado, porque acredito que todos os sítios têm qualquer coisa para nos dizer… Talvez seja este o meu mal… Assim, é uma canseira!

Só por estar a responder a esta pergunta, fico logo excitadíssima e com um sorriso parvo na cara. O que mais me apetece, é ir já pesquisar sítios, que podem ou não ser em Portugal, apenas sítios. Lugares que possa marcar na agenda: Partida para “X”. Gosto tanto! 

Dizia, à bocado, que gostava de estar em contacto directo com o chão, mas também adoro sobrevoá-lo para ter a oportunidade de sentir outros chãos, com outras texturas, cheiros e cores… Os chãos diferentes estimulam sempre qualquer coisa que ainda não tinha sentido antes, e isso faz-me sentir tão VIVA.

 

 

 

DE QUE MATÉRIA SERIA O TEU GANG?  |

De espanto!

 

|  O QUE É QUE TE MEXE COM A ALMA?  |

Eu e a natureza. Se a isto, juntar uma boa música e a companhia perfeita, os meus pés colam-se ao chão e congelam esse momento, para sempre. Em mim – a minha alma cresce.

 

|  O QUE É QUE TE FAZ TREMER DOS PÉS À CABEÇA?  |

Tremo dos pés à cabeça quando: Me espanto a olhar para a minha família; me espanto com a minha saúde, dos meus filhos e do meu marido; me espanto com o caminhos que faço todos os dias; me espanto com o sítio onde vivo; me espanto com o sítio onde trabalho; me espanto com o meu dia-a-dia;

Quando oiço uma “ganda” música, num sítio escolhido a dedo; quando estou num espectáculo onde é estimulada em mim uma entranha que ainda não sabia que tinha; quando vou a uma exposição que me toca; quando rola uma conversa boa…

Tento-me espantar todos os dias, o espanto faz-me tremer dos pés à cabeça e da cabeça aos pés. E isto,  faz-me sentir acordada para a vida!

 

|  QUAL É A MELHOR COISA QUE TE PODEM DAR?  |

Força, muita força, nos pés. Para me aguentar nesta vida até aos cento e muitos mais…

 

|  QUAL FOI O TEU MAIOR PASSO?  |

Mais coisa menos coisa, desde há 5 anos que eu e a Joana (Quadros) andamos a “mastigar” este projeto…

Andávamos sempre inquietas, muito inquietas, com a vida. Muitas foram as noitadas para espremer os sonhos e chegar ao essencial do projeto….

Tudo começou no dia em que a Joana foi a Toronto, e visitou um projeto muito parecido com o nosso, o “ArtsJunktion”, com quem ainda mantemos contacto.

Depois disso, passaram-se alguns meses. O assunto voltou a surgir acompanhado de um café ao balcão, durante o intervalo de uma formação no CCB, em que estávamos as duas. A Joana falou-me outra vez do tal projeto e sugeriu fazermos alguma coisa do género. Eu respondi-lhe imediatamente que “SIM”.

Entretanto, cada uma de nós teve vários filhos, e o seu trabalho, mas não perdmeos oportunidades para  “papar” formações e fazer noitadas atrás de noitadas, a traçar pormenores e acertar detalhes, até chegar à OHficina que temos hoje.

O que nos move é “O Sonho”; o sonho com uma concha de loucura e uma colher de sopa de ingenuidade. Acreditamos SEMPRE que TUDO é possível! Mesmo o  impossível.

Assim, fomos andando e construindo este sonho, com muitas aventuras e histórias caricatas à mistura, como na vez em que arregaçámos as mangas, e nos metemos nos nossos carros, rumo a uma estância de materiais de construção para carregar 3 metros cúbicos de areia do rio… Mesmo para quem não tem noção de volumes e medidas de peso, dá para perceber que o monte de carga que nos deparámos era “menino” para um camião de tire, e dava “baile” às nossas humildes carrinhas de 7 lugares.
Lá está, a ingenuidade misturada com entusiasmo, dá nisto… Saímos de lá de mãos a abanar, mas a rir às gargalhadas e a dizer: “Que o céu continue, SEMPRE, a ser o nosso limite!”.

E, assim, a OHficina foi crescendo até ser o que é hoje: Uma associação sem fins lucrativos, que tem como objetivo pôr ao serviço da comunidade, materiais improváveis (de desperdício), propondo um novo olhar  sobre o que nos rodeia.

Ao proporcionarmos uma exploração sensorial com os materiais OH, acreditamos que são desenvolvidas no “agente transformador”, uma série de competências transversais essenciais ao desenvolvimento humano.

E foi assim que, algures em Outubro de 2017, “uma manhã despertámos e o sonho era do lado de cá…” (Manuel António Pina).

Tão bom, quando estamos VIVAS dentro de um sonho…
OHbrigada Joana por me teres desafiado!

 

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Para saber mais sobre o projeto clica em:  OHficina – Laboratório de Materiais Improváveis

 

 

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