“Uma pessoa tem que ter vários sismos nesta vida.(…)”

 

 

 

 

Uma pessoa que responde, que o melhor que lhe podem dar é flores e sabonetes é uma pessoa que cheira bem da alma.

Talvez tenha sido por isso que quis conhecer a Margarida, curiosidade aguçada por uma amiga em comum (Mami) que não anda, levita, e que também sofre de síndrome de inquietude do pé preto.

Mas voltemos à Margarida, vamos até ao Botequim da Graça comer um pastel de massa folhada premiado e ouvir o que é que uma mulher mãos de tesoura, nos tem a dizer sobre si, e sobre a vida. A Margarida estava nervosa, eu estava cheia de fome, a conjugação destas duas emoções tão primárias resultou numa conversa desempoeirada e pueril, com toques de maturidade e brilho, que podiam fazer crer, que naquela mesa pequena com pouco espaço para quatro cotovelos, conversavam duas amigas ébrias de longa data, em jeito de fazer as pazes.

Há muita metáfora bonita no papel rasgado que se volta a colar e acho que a Margarida é uma pessoa dessas, cheia de relevo, contorno, aparas, camadas e folhas soltas, que se unem e se voltam sempre a encontrar. Quanto a mim, foi um prazer este recorte de conversa boa…e adorei que tivesses bebido o excedente do meu copo de vinho. O excesso só fica mal a quem é pouco. Gostei muito. Mais que muito.

Com vocês, Exmos. Senhores e Senhoras: Margarida Girão.

 

 

|  QUEM ÉS A MARGARIDA?  |

O meu nome é Margarida. Nasci em Coimbra e vivi na Sertã até aos 17 anos. Regressei a Coimbra na secundária e estudei Multimédia na Universidade em Aveiro. Aproveitei o programa Erasmus e fui estudar  Jornalismo para Salamanca. Já com os estudos finalizados, fui dar aulas de Design na Universidade em Dili, Timor Leste. Com 30 anos fui viver para Lisboa.

Mais tarde, decidi conquistar São Paulo com as minhas colagens. Não correu como tinha visualizado, peguei na mochila e armei-me em corajosa: atravessei sozinha a Argentina, Chile, Bolívia e Peru. Tive medo, mas há comboios que só passam uma vez na vida e não me iria perdoar se não aproveitasse a oportunidade. Correu tudo bem.

Regressei a Lisboa em 2015 e cada vez estou mais focada na minha carreira de Rainha das Colagens, ou artista visual, podem escolher o nome.

Há dois anos que organizo Workshops de Colagem no meu atelier na Graça, em Lisboa, no Museu do Oriente e no festival de sustentabilidade “GreenFest”, no Estoril.

Tento estar presente como voluntária em projetos sociais, como o grupo Fashion Revolution Portugal e associações de defesa animal.

O meu trabalho foi publicado em edições da Wired UK, ADWEEK USA, VOGUE China, Computer Arts, Visão, Dinheiro Vivo, Jornal i, para nomear alguns.
http://www.margaridagirao.com/

 

|  QUEM É O TEU GANG?  |

Não tenho gang. Nunca tive um gang, e, se alguma vez tiver algum, serão os meus filhos e o pai deles.
Sempre tive uma postura de outsider no que toca a grupos ou filosofias sócio-políticas.

Tenho um número pequeno de amigos e cada um, com a sua personalidade e estilos de vida diferentes dos restantes. Tenho uma maior tendência em ser lobo solitário, mas sou uma loba com facilidade em conhecer e fazer amizades novas. Mas só as mantenho, se houverem valores mútuos e, claro, ter prazer em estar com essa pessoa e curiosidade em conhecê-la mais e melhor.

Há dois meses reencontrei a minha melhor amiga de infância. Não nos víamos desde a nossa adolescência, há mais de 20 anos. Nessa noite, mal dormi, o meu coração estava gigante de tanta felicidade.

Se esta pergunta fosse uma pergunta de vida ou morte, a resposta seria que a Sílvia é o meu gang.
O que nos une é um carinho do tamanho do universo e amor. Sim, porque a amizade também é uma forma de amor.

Também não me posso esquecer das minhas meninas do atelier. Já não consigo viver sem elas. Experimentei mas regressei a correr.

 

|  ÉS MAIS PÉ DESCALÇO OU PÉ CALÇADO?  |

Sou uma loba moderna. Prefiro andar calçada. Mas esta vossa pergunta alertou-me paa esta coisa da modernidade de andar com o corpo tapado. Que seca!
Vou começar a estar atenta, e a descalçar-me mais e melhores vezes.

Quem anda de pé calçado não consegue ter uma resposta tão poética como a da descalça. (pelo menos imagino-a melhor).

 

|  PREOCUPA-TE O CONCEITO “DEIXAR PEGADA”?  |

Sim, o meu trabalho. A minha criatividade. Mas não encaro isto como preocupação. É um caminho que estou a construir com muitas pegadas. Umas para trás, outras quietas, umas a correr, feitas malucas, e, outras, confiantes e focadas.

Eu nasci já velha. Desde muito nova que sei no quero trabalhar e sempre tive a determinação suficiente para (tentar) fazer acontecer.

 

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|  ONDE SONHAS METER O PÉ?  |

O meu pé sonha ter os seus dedinhos enfiados nos rios e ribeiras da Beira Baixa, com aquelas pedras escorregadias. É tão bom. Aquela água gelada, quando cá fora estão 40 ou mais graus.

Eu sou da Sertã, uma vila no centro de Portugal. Sempre quis fugir dali para fora. Entendo perfeitamente essa minha, e de outros, necessidade de fuga. Temos sonhos e queremos experimentar o mundo e pessoas.

Mas quando me falam em “meter o pé” a imagem é nas paisagens dessa vila. Mas calma, não sou saudosista e não quero regressar. Mas acreditem, aquela água gelada em dias de Verão sabe muito bem!

 

|  O QUE É QUE TE FAZ SALTAR A PÉS JUNTOS?  |

A crueldade aos animais, e aquela estupidez mesquinha de alguns humanos, mas a esta, para o bem da minha saúde mental, desisti de reagir contra. Ignoro.

Não faço parte do gang que só gosta de animais, e que não acredita na raça humana. Quero estar longe disso. Eu adoro a nossa espécie, mas calhou-me ter compaixão pelos animais. Há causas suficientes neste mundo para serem abraçadas por todos nós.

 

|  DE QUE SERIA FEITO O TEU GANG?  |

Pessoas determinadas em concretizar os seus sonhos e com amor e respeito pelo próximo. São uma inspiração estas pessoas.

Bolas, tenho tanta sorte nos meus amigos. Têm um coração grande e questionam a sociedade e as nossas opções. Não há só preto e branco, há mais cores nesta vida. Os meus amigos são frontais, inteligentes e fazem-me melhorar e crescer. Querem ver que tenho um gang e não sabia?

 

 

 

|  O QUE É QUE TE MEXE COM A ALMA?  |

O sofrimento dos animais. Não há volta a dar. Uma pessoa nasce assim e tem que usar isso como ferramenta para ajudar.

 

Já fui voluntária em várias associações. Neste momento, estou a participar ocasionalmente numa. Já não sou tão aparentemente activa, mas faz parte do meu quotidiano, visto a camisola por dentro. Às custas disto, já fiz inimizades em algumas ruas do meu bairro. Temos pena. Eu não.

|  O QUE É QUE TE FAZ TREMER DOS PÉS À CABEÇA?  |

Várias coisas. Uma pessoa tem que ter vários sismos nesta vida. Um homem é a primeira resposta. Mas tirando os tremeliques sexuais, um trabalho artístico que provoque borboletas até estar finalizado.

E a música… O que seriam dos meus sonhos acordados sem uma boa banda sonora? Nada. E não sou muito esquisita (por acaso sou), desde bandas indies ao pop mais foleiro. Faz-me tremer? OK, vai já para a playlist. Desde miúda, que sonho acordada a ouvir música, e isso, é a minha droga para continuar a acreditar que tudo é possível.

 

|  QUAL É A MELHOR COISA QUE TE PODEM DAR?  |

Flores e sabonetes. Caio aos pés de quem dá.
Adoro cheiros. Acalma-me e faz-me sentir em casa. Não uma casa física, mas interior. Flores, desde que não sejam orquídeas e gérberas,  podem dar todos os dias! Normalmente, sou eu a dar a rapazes. Mas nem assim, têm percebido a dica. Não me parece que tenha que mudar de flores.

 

|  ÉS MAIS PÉ NA MONTANHA OU PÉ NA AREIA?  |

Ambas, sendo que a praia, não é a versão turística-paraíso. E montanha, já tive a minha dose suficiente de grandes altitudes. Na Bolívia estive a 5.200 metros e reagi bem fisicamente. Os que estavam comigo vomitavam, sangravam do nariz, tomavam Xanax para conseguirem dormir, e eu, sempre perfeita. Acontece que, estava com tanto medo que me desse um fanico longe da civilização, que não usufrui de nada.
Pode ser uma montanha baixa e tropical. Parece-me um bom destino para esta medricas.

 

 

 

|  O QUE NÃO PODEMOS PERDER NA NOSSA TERRA?  |

As praias fluviais do interior. Não sei o nome de nenhuma daquelas onde vou. Nem sei se têm nome. Estão escondidas. O meu pai indica o caminho.
Mas para não responder nada, indico a de Fróia, dentro o circuito das aldeias de xisto.

A última vez que lá estive estavam 45 graus, e mesmo assim o primeiro mergulho custou de tão gelada a água estar. Mas depois, ninguém quer sair.

Há outro spot muito bom: O tanque dos meus pais. Dás uma braçada, e já chegaste ao fim. Tão bom ir lá para dentro vestida!

 

|  ONDE SONHAS METER O PÉ?  |

Quero voltar a Timor Leste e a Bali. Talvez regressar ao Rio de Janeiro, mas não choro se não for. Alguns países do Médio Oriente fascinam-me. Goa, é outra referência.

E nenhum destes por algum motivo bem argumentado. Fizeram o clique no coração. Amanhã, pode ser outro destino.

 

 

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