” Choro em quase todos os meus concertos. (…) Acho que, se consigo estar em contacto com as minhas emoções dessa maneira, é porque a música veio de um sitio verdadeiro em mim. “

 

 

 

| BIO |

Luisa Sobral é uma reconhecida cantora e compositora portuguesa.

Após ter vivido 4 anos nos EUA, onde concluíu a sua licenciatura na Berklee College of Music (Boston), estreou-se em 2011 com o seu primeiro álbum. A esse, seguiram-se mais três, e em breve, juntar-lhes-se-á o número cinco.

Foram sobretudo os espetáculos e as participações televisivas especiais, que impulsionaram o seu percurso dentro e além-fronteiras. Espanha, França, Suíça, Alemanha, Inglaterra, Marrocos, China, Zimbabwe e África do Sul já figuram entre as suas escalas.

Em cada uma das suas canções, estreitam-se a cumplicidade e os laços afectivos com quem ouve. As suas letras tocantes, colocam-na num patamar de maturidade criativa segura, exigente, autêntica e espontânea.

Em palco, está em casa. E tem a amabilidade generosa de nos convidar a visitá-la. E de nos fazer sentir em casa.

 

|  QUEM É O TEU GANG?  |

O meu gang é a minha família, os meus cães, o meu marido e o meu filho. E agora, também o meu segundo filho que aí vem.

 

|  ÉS PÉ DESCALÇO OU CALÇADO?  |

Lá em casa, sempre fomos pés descalços. O meu marido está sempre a dizer que vou ficar doente por andar sempre sem nada nos pés. A minha mãe também sempre andou descalça, por isso, para nós, os sapatos eram só mesmo uma “coisa que tínhamos de vestir” para sair à rua.

De tanto andar sem sapatos, acabei por criar uma espécie de sola na palma dos pés, que já não sinto nada do que está por baixo.

Gosto de sentir o chão nos pés. É uma questão de hábito, há certas coisas que nos prendem se não estamos habituados a usa-las.

Acho que o que a pessoa veste (ou não), nos pés, diz muito sobre ela, e sinto que, também, acabo por ser um bocadinho pé descalço no resto da vida.

 

|  O QUE TE FAZ SALTAR A PÉS JUNTOS?  |

Qualquer coisa que me faca emocionar: são as histórias bonitas de outras pessoas; é ir a um concerto e ouvir algo que me faça chorar; é cantar uma música que me toque e não conseguir terminá-la.

 Adoro chorar de emoção! A música tem muito esse efeito em mim, o que é normal, porque é o que eu faço. No dia em que deixar de mexer comigo dessa maneira, se calhar, deixo de o fazer. Choro em quase todos os meus concertos, especialmente quando canto uma canção que escrevi para os meus filhos, mas já não me importo com isso… Até acho que é bonito, se for genuíno. Só é chato quando chego a meio da música e não consigo continuar. Apesar disso, acho que é bom sinal, porque se consigo estar em contacto com as minhas emoções dessa maneira, é porque a música veio de um sitio verdadeiro em mim.

 

|  O QUE TE FAZ TREMER DOS PÉS À CABEÇA?  |

Eu não tinha medo de nada. Agora tenho medo de tudo (desde que sou mãe). Antes costumava pensar: “Se morrer agora, está tudo bem, já fiz muita coisa”. Mas hoje em dia, já não penso assim. É mais: “Eu não quero morrer agora.”

As minhas emoções não são muito extremas, sou uma pessoa “supercontrolada”, mas há coisas que me fazem tremer de irritação, por exemplo: a falta de profissionalismo e de civismo, de pontualidade, de brio, e de respeito. Tudo isto, me tira do sério.

 

 

 |  ANDAS A CORRER OU A CAMINHAR?  |

A caminhar… Eu sempre fui horrível a correr, o pior dia do meu ano, quando era miúda, era o dia do corta-mato. Até cheguei a arranjar um atestado médico a dizer que não podia participar porque tinha os pés chatos. Ainda me safei, durante um ano. Odiava mesmo aquilo… Ficava sempre em penúltimo, atrás da miúda gordinha, que, na reta final, mandava um “sprint” e me passava à frente. Por isso, comecei a andar, mas o que gosto mesmo é de nadar.

 

|  ONDE SONHAS METER O PÉ?  |

No Japão. É o meu país de sonho há muitos anos, até comecei a aprender japonês, mas depois fartei-me porque o professor me obrigava a escrever o alfabeto e a fazer símbolos, e o que eu queria mesmo, era falar com as pessoas.

Fascina-me muito a cultura japonesa: a comida, o cinema, a maneira daquele povo ser tao diferente de nós, de ser tão metódico, tão limpo, tão perfecionista. Ainda hei-de lá ir tocar.

 

|  QUAL FOI O TEU MAIOR PASSO?  |

Ter ido viver para os Estados Unidos aos 16 anos foi o primeiro grande passo que dei e que acabou por mudar totalmente o rumo da minha vida. Se não tivesse ido, não tinha lá ficado a estudar música, e, provavelmente não seria quem hoje sou.

Mas ser mãe foi, definitivamente a coisa que mais me mudou a mim e à minha vida.

Este papel trocou totalmente as minhas prioridades e a minha maneira de ver o mundo.

Quando somos pais deixamos de ser nós o nosso próprio centro. O primeiro instinto naturalmente, é sempre baseado em nós mesmos, é uma questão de sobrevivência: orientamos pensamento numa lógica egocêntrica, e questionamos constantemente: “O que é bom para mim?”. Mas quando se tem filhos, é sempre sobre eles primeiro.

Põe-se tudo em perspetiva: O que antes era um drama, afinal não é assim tão dramático; os momentos, para serem especiais, já não precisam de ser altamente programados, podem ser só momentos em família; as pequenas coisas que me irritavam facilmente, já deixaram de me importar. Hoje relativizo tudo.

 Estou mais condicionada, sim, porque, apesar de continuar a fazer tudo, acabo por deixar de fazer muita coisa porque quero passar mais tempo com ele.

 Sinto-me diferente, mas para melhor, muito melhor.

 

|  QUAL É A TUA PEGADA?  |

Acho que, naturalmente, quando se é artista o que se deixa para trás são as obras que se criam.

Agora que sou mãe, deixo também parte de mim nos meus filhos. Gostava que fossem sensíveis, sem se importar de o ser. Quero que saibam apreciar as coisas, que gostem de arte, que não tenham medo de se emocionar, nem de chorar quando dá vontade. Tanto eu como o meu marido somos assim, por isso espero que eles vejam isso em nós e sejam assim também.

De resto, não desejo deixar muito mais. Não pretendo que se fale de mim, nem quero ficar para sempre marcada na historia de alguma coisa. Só quero ser lembrada por quem me conheceu verdadeiramente, em vida.

 

 

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