“(…)por isso respeito e dou palco a quem comigo trabalha num país onde muitos escondem as equipas.”

 

Conheci os frutos antes da árvore. Não sei bem como, nem quando,  mas dei por mim a navegar no Instagram do teu filho, que não deve ter mais que 12 anos. Não descurando a individualidade própria de um ser tão pequenino, percebi que havia gente enorme por trás. Fiquei com vontade de conhecer a árvore grande.  O teu nome precede-te, lembro-me de ser pequenina e ouvir falar da Graça Viterbo, um nome reconhecido, acima do conhecido, ligado à decoração. Passava pela tua loja muitas vezes e até sabia que já tinhas um grande armazém. Acabamos por estar juntas, num shooting fotográfico, em tua casa. Não só conheci a árvore como conheci o teu “terroir“.  Pouco conversamos nesse dia, mas percebi logo, a dimensão humana que dás a tudo o que plantas, da casa, ao trabalho, aos filhos. Nesse dia, decidi que gostava de ser tua amiga (que é coisa que não quero ser de muita gente) e de te entrevistar. Por agora avancemos com a entrevista, a semente da amizade não tardará a crescer. Com vocês, Exmos. Senhores e Senhoras…Gracinha Viterbo (não é só para os amigos).

| BIO |

Gracinha Viterbo é Partner, Directora Criativa e Head Designer da Viterbo Interiors Design . A Viterbo id tem o escritório num Warehouse Studio em Cascais com uma equipa de 25 pessoas (Designers, Arquitectos, Gestores de Projecto e um estúdio/ oficina interna de Cortinas e Estofos e Carpintaria), uma Loja no Estoril chamada Cabinet  of Curiosities onde se encontram objectos improváveis e únicos encontrados por ela. Juntamente com o seu marido e sócio Miguel Vieira Da Rocha, diretor-gerente da empresa e a mente por trás de toda a estratégia e Business Viterbo.
A empresa foi fundada há quase 50 anos em 1971 pela mãe de Gracinha, Graça Viterbo, uma das mais antigas e experientes em Design de Interiores de hoje, e é conhecida mundialmente pela sua criatividade rebelde e Off-the-Grid, chique e intemporal com aquele toque irreverente em projetos residenciais, comerciais e de de hotelaria, muitos deles galardoados com prémios e reconhecimento de prestígio.
Gracinha ingressou na Viterbo em 2000, e passou a dirigir com o Miguel a Viterbo em 2008. Os dois, decidiram há uns anos estabelecerem uma base em Singapura pelo trabalho crescente que daí era requisitado, a partir da qual se concentrou no crescente portfólio da empresa naquela região. A empresa também possui um escritório em África desde 2007, onde trabalha com hotéis e projetos residenciais privados.
O espírito globe trotter e alma nómada da Gracinha faz com que se inspire e adapte com tudo a sua volta , de gargalhadas a conversas , cores a texturas , objectos a pessoas ou espaços. Trabalha para construir histórias, não para ganhar prémios . Não lhe interessa o tamanho do projecto mas sim a magia da história e a ligação com os clientes . Trabalha para um T0 ao mesmo tempo que projecta enormes residências ou Hotéis com o mesmo entusiasmo .  Viaja para colecionar memórias e aprender com os outros. Em consonância com o manifesto de Viterbo, “A Arte de Olhar Para o Lado”, Gracinha compartilha sua visão da vida como uma  rebeld girl, em casa desafia as formas tradicionais de educar, no trabalho gosta de trabalhar fora do radar comercial e é conhecida por um estilo pessoal irreverente. Clientes vêm ter com ela por singularidade e autenticidade,  é uma esteta, um especialista em estilo, criadora nata, sem dúvida uma presença rebelde na sua indústria . Desafia um mundo onde as tendências são projetadas para as massas e luta pelo retorno da identidade única e autenticidade, boa energia e profissionalismo mas
acima de tudo para que o respeito, igualdade e amor sejam espalhados como confettis.
Uma cidadã global e uma nómada de coração com uma educação francesa e Bachalaureat, uma British BA e MA e um  CV Internacional, fala  5 línguas fluentes mas é em Portugal que encontra o seu Norte e a sua âncora. Gracinha abraça a sua família e quatro filhos como o centro de tudo, nunca parou de trabalhar durante as suas gravidezes, viveu na Europa e na Ásia e aperfeiçoou a arte de viajar pelo mundo com uma família numerosa. Estabeleceu-se em Singapura durante 4 anos com sua família, para o lançamento da Viterbo no emergente mercado asiático e regressou a Portugal, há pouco mais de um  ano, ao escritório nacional, à sua casa e país para ficar.
Acredita que a identidade é equilibrada entre os que amamos e o que criamos ou fazemos no dia a dia: a nossa paixão . Enfrenta todos os dias com valores de originalidade, igualdade e absoluta necessidade de pensar fora da caixa num mundo em constante mudança, da educação ao trabalho, onde projeta e cria as suas próprias tendências, onde originalidade e identidade residem, e redefinindo  o Coolness como cada um dos epicentros em que Viterbo encontra o foco para oferecer aos clientes, um design personalizado que vai além do esperado.
A Gracinha também desafia constantemente todos ao seu redor a olhar para dentro de si mesmo primeiro,  desde seus filhos até a sua equipa e clientes, desafiando-os a verem o mundo através da sua própria lente e não pela perspectiva dos que os rodeiam, assim levando os que a rodeiam a serem eles mesmos neste mundo.

 

| TENS UM GANG? QUEM É O TEU GANG? |
O Meu Gang é o meu marido e os meus filhos .
O Meu gang é a minha família do coração lá em casa que cresce e eu cresço com eles , que me atura , que me dá a mão e não me larga nem em dias de tempestade. E eu tenho os meus dias de tempestade , mas com eles entrei numa transformação profunda , num querer pertencer a uma realidade crua , linda e verdadeira e não a uma realidade que antes era apenas uma perspectiva destorcida pelos olhares dos que me rodeavam e me interpretavam mal. O meu Gang é quem sabe quem eu sou por fora e por dentro e mesmo assim me ama , me aceita e me valida “step by step”.
O Miguel meu marido, o santiago, o Gui, o Benjamim e a Alice são o meu Gang até ao fim.
E claro com eles o Zov e o Gatsby os nossos cães e melhores amigos.

 

| ÉS MAIS PÉ DESCALÇO OU PÉ CALÇADO? |
 Sou um pé calçado que se descalçou e agora anda a aprender a andar sem sapatos. Um pé que quer sentir a frescura da terra e a dureza da estrada e quer ficar com as marcas, as memórias e as histórias impressas para que nunca me esqueça do que me constrói e me guia no dia a dia.

 

PREOCUPA-TE O CONCEITO “DEIXAR PEGADA”?
A minha perspectiva de deixar pegada é positiva. É a passagem dum saber de experiência feito mas em tom de direção e não de obrigação. Seja em casa com os meus filhos ou no trabalho com a minha equipa, nas redes tipo Instagram ou facebook, eu sou eu como o universo me fez e como a minha vida me construiu. Eu cheguei a um porto seguro,  estou numa fase em que tenho os sentido apurados mas ainda estou a aprender, em que tenho visão e conselhos feitos mas não os impinjo a quem me rodeia , apenas salpico e dou espaço aos que me acompanham, me ajudam e comigo colaboram nesta vida de loucos onde o que me guia é um sentimento de “e porque não? ” quando me perguntam “como é que tiveste 4  filhos e tens  uma carreira tão intensa ?”, “como usas turbantes e roupa que não está na moda ou não se costuma ver”, ou “como fazes isto ou aquilo” , e eu não respondo a muitas pessoas que acho não vão perceber a minha resposta apenas rio e mudo de conversa porque eu acredito que deixamos pegadas desde que nascemos, por isso respeito os meus filhos como se fossem fossem adultos, como se fossem meus professores, e por isso respeito e dou palco a quem comigo trabalha num país onde muitos escondem as equipas. Para mim deixar pegada é o que faz sentido, é o símbolo de comunidade e partilha, troca de histórias e paixões. É expor quem somos para daí crescermos e evoluirmos neste caminho da vida e depois podermos olhar para trás e ver de onde viemos, quem nos carregou que do precisávamos em quem carregamos nós e quem nos acompanhou. A vida é muito mais que um caminho e as minhas pegadas vêm rodeadas de gente linda que me acompanhou e me leva com eles a dançar até ao fim!

 

| ONDE SONHAS METER O PÉ? |
 Sou uma nómada de espírito desde muito nova , viajei sozinha desde mesmo muito nova.
Sempre gostei de viajar sozinha, tive as minhas histórias e aventuras. Perdi-me em algumas cidades e encontrei-me noutras. Vivi em Londres e em Singapura, em duas alturas muito diferentes da minha vida. Trabalhei dos 30 aos 40 pelo mundo, viajei muito, dormi muito pouco e vi e fiz muita coisa. Tenho um marido que é minha alma gêmea e que me acompanhou, e que ajudou a fazer “pessoa”. Foi ele que levou a marca Viterbo para fora e juntos traçámos novos o nosso caminho. Levámos a minha família connosco, mudámos o nosso rumo e transformámos a nossa essência. Passámos momentos muito duros, mas sempre ouvi dizer, que quando olharmos para traz os momentos mais duros são os dias mais bonitos da nossa vida . Já meti o pé em muitos lugares que sonhava. Viajei o mundo com família e em trabalho e agora sabe-me bem estar em casa. Viajar Portugal de lés a lés , criar raízes que arranquei quando parti. Já tenho em mim meio mundo pelas viagens feitas e agora quero estar aqui. Quando se viaja, cada vez que viajamos, deixamos um pouco de nós e levamos um pouco connosco. O meu espírito é feito de tantos rituais, culturas e tradições que as inspirações não têm fim. Ainda quero meter o pé em muitos lugares mas sinto que agora o meu lugar é aqui .

 

 

| O QUE É QUE TE FAZ SALTAR A PÉS JUNTOS? |
O meu marido . O Miguel . Não houve nada que ele não me desafiasse na vida que eu não tivesse saltado a pés juntos e de cabeça.
 Qualquer desafio. Gosto de desafios. Gosto de sair da minha zona de conforto. Gosto de me ultrapassar. Não quero ser uma velhinha a quem digam ” que querida velhinha” quero que pensem “que raio andará ela a fazer agora?” Até ao fim. Desafiar-me a mim própria , dá-me força , faz-me sentir viva. Gosto de mudança, gosto de me entregar a pés juntos naquilo e em quem acredito. Sou assim, há quem me ache distante, calada, até antipática, mas isso é tudo timidez e introversão com a qual danço e tento largar desde que nasci.

Gosto de desafios, gosto de me sentir viva e de celebrar esta vida com a minha criatividade, seja na vida pessoal ou profissional, sozinha e com os que me rodeiam, me abordam e me desafiam para projectos. E quando salto a pés juntos levo sempre os que estão comigo nessa viagem, transformamos-nos e completamos-nos sempre mais um pouco, salto a salto.

| SE TIVESSES QUE FORMAR UM GANG, DE QUE MATÉRIA ERA FEITO? |
 Era feito de sol e era de todas as cores, era feito de confiança, alegria, amor, gargalhadas, e muitos sonhos mas daqueles sonhos com datas que são feitos de esperança e de trabalho e que um dia se tornam reais. Era um Gang feito de pessoas, de amigos e humanos verdadeiros, corações grandes e verdadeiros. Um Gang com pés na terra e cabeças no ar. Um Gang de pessoas fortes e vivas, trabalhadoras e inspiradoras.

 

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| O QUE É QUE TE MEXE COM A ALMA? |
Gratitude.
Só há pouco tempo é que comecei a parar para sentir gratidão por tudo o que diariamente me acontece, e isso mudou a minha vida . Mudou a minha fibra. Ainda me estou a transformar, parece que estou a aprender a andar outra vez. Ver a vida com gratidão intensifica todos os momentos, aproxima-nos de quem nos rodeia e muda tudo e mexe muito com a alma .

 

| O QUE É QUE TE FAZ TREMER DOS PÉS À CABEÇA? |
 O olhar do meu marido.
A mão espontânea dos meus filhos na minha.
Um momento de luz bonito.
A música.

 

 

| QUAL É A MELHOR COISA QUE TE PODEM DAR? |
 Um abraço.
Não há nada melhor que um abraço verdadeiro.

 

| VAMOS FALAR DE DESTINOS.
ÉS MAIS PÉ NA MONTANHA OU PÉ NA AREIA? |
 Sou gémeos ascendente gémeos. Estou em todo lado como peixe na água.
O que não gosto é de rotina, como ir todas as férias para o mesmo lugar.
Gosto de explorar,  sou tão feliz no mar e na praia a apanhar conchas e a comer peixe fresco, como em cima da montanha a ouvir o silêncio na neve . Sou verdadeiramente feliz nos dois lugares. E depois há a cidade, sou urbana e também devoro cidades. Os meus olhos não param em cidades que não conheço, tudo me inspira e sobretudo a descoberta é um coisa única.

 

| QUERES PARTILHAR CONNOSCO UM SPOT EM PORTUGAL E NO MUNDO QUE NÃO PODEMOS PERDER? |
 Ando a descobrir Portugal, este verão vão ser mais umas terras e cidades a fundo. No ano passado a minha descoberta foi a barragem do Alqueva. Com paisagens lindas e um silêncio bonito, foram uns dias que me surpreenderam, umas noites sobre um céu estrelado espectacular que não me vou esquecer.

 

| E NO MUNDO? ONDE É QUE SONHAS IR OU VOLTAR? |
Itália é sempre um país onde gosto de voltar, tenho saudades de fazer a costa Amalfitana de onde tenho grandes memórias.
Sonho ir ao Japão e à India, lugares onde até agora não tive o tempo que acho preciso para lá ir nem calma de espírito para tudo o que me vão inspirar e dar. Não quero correr mais depressa que o meu espírito nem anjo da guarda e há lugares que acho tenho de esperar para ir. É uma mania minha . Há lugares que acho que ainda não estou preparada para conhecer.
Quero subir o Kilimanjaro mas vou fazê-lo com um dos meus filhos.

 

| O QUE É QUE MAIS TRAZES DO MUNDO QUANDO VIAJAS? |
Memórias. Tradições. Gosto de trazer pedras, folhas e muitas fotografias.
E claro como o meu trabalho é design de interiores, trago muitas vezes conhecimentos novos de como trabalhar materiais ou texturas e muitas inspirações que mais tarde me servem de inspiração quando escrevo a base dos meus projectos. Porque também gosto de levar os meus clientes em viagens através dos seus projectos. Eu não sou vendedora de móveis, sou escritora de histórias e identidades. Crio cenários para vidas reais e todas estas viagens e experiências, deram-me acima de tudo, a conhecer pessoas , vidas que levo comigo de projecto a projecto numa teia sem fim.
 

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