“(…) a beleza do desgaste, que sulca as caras, as mãos e a espinha. Olha-se para um pescador e sabe-se.”

 

 

Sempre tive uma admiração tremenda pelas pessoas que trabalham no mar. Foi com os pescadores, e sobre pescadores, que comecei a escrever as minhas primeiras histórias, a aflição das famílias, as correntes imprevisíveis, a luta permanente, a noite escura, o frio, o Velho e o mar.

 

 

Sei que o mar não faz promessas. É um jogo de adivinha, de fé, de antiguidade e premonição. E depois, há a beleza do desgaste, que sulca as caras, as mãos e a espinha. Olha-se para um pescador e sabe-se.

 

 

Já tinha vindo a Aveiro, mas não tinha conhecido os artesãos do barco e do mar. Os moliceiros que hoje se vêem rasgar as águas da Ria nem sempre foram barcos turísticos.

Em pleno século XIX faziam a apanha do moliço, o lodo existente na Ria que, depois de estendido em eiras para secar ao sol. Servia de fertilizante às terras arenosas dos agricultores da região. Mas, a progressiva substituição do moliço por adubos químicos, fez decair a actividade ao longo do século XX.

 

 

Há algumas décadas, os antigos estaleiros da Ria de Aveiro, foram reactivados para recuperar os moliceiros e as velhas técnicas artesanais de fabricação destes barcos, que passaram a ser utilizados como barcos de turismo. Esguios e coloridos, pintados na proa e na popa com desenhos tradicionais de cores garridas que invocam factos históricos ou a devoção popular, os moliceiros sulcam a Ria mostrando o outro lado da cidade de Aveiro.

 

 

Tive a oportunidade de conhecer o pintor José Manuel. Um barco é tão maior que um desenho… Tive mesmo vontade de pintar. Inveja daquelas mãos brancas, daquele avental de plástico, das latas de tinta alinhadas, dos pincéis, do cheiro a diluente, se calhar não devia ter diluído tanto a criança que vive em mim.

 

 

Tenho constatado que os adultos têm uma carência absoluta de deitarem às mãos às actividades das crianças, exclusivo de artistas e artesãos em versão crescida.

 

 

Se Aveiro vale a visita por milhares de razões, visitar a ria, os moliceiros e os pescadores é mais um motivo a  acrescentar. Sempre que venho a Aveiro penso que devia vir cá mais vezes. Desta vez vim sozinha… Amanhã volto com o meu Gang.

 

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Paisagens do Caraças

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Comer de Chorar por Mais

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E Isto Custa

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